Arquivo da categoria ‘Psicotrópicos’

Marcha da Maconha Liberada em Salvador!!!

19 Setembro , 2009

Galera malévola,

Uma centelha de consciência na “capital da alegria”.

Estive acompanhando, por um tempo, o processo da Marcha da Maconha em Salvador, movimento legítimo e democrático que visa inserir a questão da legalização das drogas na esfera pública brasileira. Compareci, com muito gosto, no debate que houve na UFBA em 2007 e acompanhei as proibições da Marcha em 2008 e 2009. Pasmo, encarei como um puta retrocesso democrático a proibição da discussão da legalização. Não foi proibido somente o uso de drogas em nossa sociedade, foi proibido falar sobre o assunto publicamente.

Acontece que os santos ativistas pró-legalização da Bahia, especificamente a ANANDA (uma rede formada por ativistas, redutores de danos, pesquisadores e cidadãos que buscam promover o diálogo sobre a legalização das drogas)  não se deram por vencidos e entraram com um Habeas Corpus aqui em Salvador em 29 de maio solicitando proteção jurídica para a realização da Marcha. Em 1 de setembro saiu a decisão a favor da manifestação.

Antes tarde do que nunca. O parecer do juiz (o Acórdão, vale a pena ler) favorável à Marcha foi de extrema consciência por apontar o óbvio: a Marcha da Maconha não incita o uso e muito menos o tráfico de drogas. É um mecanismo democrático que visa incitar um debate importante e que a muito tempo é recalcado em nossa sociedade por uma série de preconceitos, ignorâncias e muito pouca inteligência (vi um dia em 2008, num MTV Debate, que inclusive contava com a presença do incansável Sergio Vidal, um tiozinho da polícia falando que a Marcha da Maconha era financiada pelo tráfico de drogas!!!).

Bom, rolou. Depois disso, a galera da ANANDA já marcou o dia de exercer seu recém conquistado direito: 5 de dezembro. Não vou estar aqui para aproveitar, mas desejo paz, serenidade e alegria a todos os presentes.

Obrigado ANANDA, obrigado Sérgio Vidal e obrigado ao consciente Juiz.

Argentina 3 x 0 Brasil

25 Agosto , 2009

Galera do mal!

Acabei de ler na Folha Online que a Argentina descriminalizou o porte de pequenas quantidades de maconha e o consumo para adultos e em lugares privados. A partir do julgamento de dois jovens, a Corte Suprema de Justiça do país decretou que “todo adulto é livre para tomar decisões sobre o estilo de vida sem a intervenção do Estado”. Esse é o argumento que todos os maconheiros queriam escutar de um juíz, pois deixa claro que, se o consumo de maconha não afeta a vida social e diz respeito somente ao usuário, este deve ser deixado em paz.

Contudo, nada há a respeito do que seria considerado “pequena quantidade de maconha”. Assim sendo, eles entraram no mesmo problema da lei de entorpecentes do Brasil – que não descriminaliza o uso, mas prevê penas alternativas para os usuários não-reincidentes. Cabe, portanto, ao policial que fez a apreensão num primeiro momento, e ao juíz num segundo, determinar se a quantidade apreendida pode ser considerada uso ou tráfico. Nessa, o doido vai, pelo menos, passar um tempinho na prisão e pelo constrangimento de ser algemado, coisa e tal.

Outro ponto discutível: não há nada falando, pelo menos na notícia da Folha Online, BBC, G1 e Terra (que são quase a mesma coisa, pelo menos em relação à essa notícia) sobre a possibilidade de plantio para consumo próprio. Contudo, houve outro caso, em 2008, onde juízes federais de Buenos Aires absolveram um outro jovem que estava sendo julgado pelo plantio de 6 pés de maconha em sua sacada. Nessa ocasião, o caso poderia ser levado para a Corte Suprema, mas não achei mais notícias a respeito (não procurei tãããão bem assim ;^)  ). Em um terceiro caso, com decisão bastante avançada,  a Câmara Federal de Buenos Aires absolveu uma mulher também julgada por ter plantado, mas que alegava que o uso da erva atenuava suas dores nas costas. A decisão levou à abertura de uma jurisprudência que admite que o plantio e o uso da maconha, em quantidades restritas, pode ter fins terapêuticos.

Mesmo não considerando o plantio para consumo próprio, a decisão da Corte Suprema é um avanço, pelo menos em comparação a como o tema é tratado aqui no Brasil. Acredito que o argumento de “ato privado”, em que o uso é considerado um ato que diz respeito somente ao usuário, deva ser extendido para o plantio para consumo próprio, pois se há algum dano social no uso da maconha, esse dano é o tráfico de drogas. Descriminalizar somente o uso não vai atenuar esse dano, mas pelo menos o usuário não vai mais ser encarado por aquilo que ele não é: um criminoso.

Luz no fim do túnel?

13 Fevereiro , 2009

Depois de um tempo de retrocesso sobre o tema da descriminalização (eta palavrinha estranha para digitar), marcada por desinteligências e repressões jurídicas na marcha da maconha em 2008, o assunto voltou a ser tema na mídia e na política nacional essa semana. Dando uma olhada nos jornais, li 2 notícias a respeito. A primeira é sobre o ex-presidente FHC defendendo a descriminalização para uso pessoal (http://noticias.uol.com.br/politica/2009/02/11/ult5773u595.jhtm) e a outra é sobre o nosso ministro da saúde, José Gomes Temporão, indicando que é a favor de um debate sobre o assunto (http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,temporao-defende-debate-sobre-descriminalizacao-da-maconha,322833,0.htm). Bom, já sabemos como se desenvolvem as discussões de temas, digamos, avançados para um pensamento conservador, na política nacional. Temos exemplos como as discussões sobre legalização do aborto para fetos sem chance de sobrevivência ou o famigerado plebiscito para o porte de armas. Sobre o primeiro tema, li coisas absurdas e perturbadoras sobre o assunto, algo como “a dor da mãe dar a luz a um feto morto é necessário para sua recuperação emocional”. Essa idéia absurda e infeliz (diria imbecil) saiu da boca de um médico (homem, claro) chamado pelos parlamentares para discutir o assunto.
Sabemos que o assunto da descriminalização será debatido por caretas e/ou hipócritas. Resta esperar que haja um bom senso para que essa discussão seja levada para à opinião pública, para podermos fazer um estardalhaço.

Top 5 Ganja Music!

18 Julho , 2008

E aí doidos!

Como eu estou praticando meu lado marketeiro nesse blog, resolvi juntar os dois assuntos mais populares daqui – compartilhamento de arquivos e maconha – em um só e decidí fazer um top 5 com as músicas mais marofadas que eu conheço (ou que eu me lembro agora). Da larica só de ouvir!

Trojan Ganja Reggae Box Set

Fonte: http://punkdownloads.blogspot.com

Download CD 1

Download CD 2

Download CD 3

A Trojan Records é uma gravadora Inglesa fundada em 1968 e é uma das mais importantes divulgadoras de música jamaicana. Atendendo a pedidos de colecionadores, a Trojan decidiu remasterizar todo o seu acervo fora de catálogo e lançou diversos Box Sets como esse, sempre remetendo a um estilo (Ska, Dub, Rocksteady, Roots Reggae etc). Se vcs clicarem na fonte dos links desse álbum, tem uma boa lista de “Trojan Box Sets” disponível. Recomendo o Trojan Dub Box Set (ia colocar ele nessa lista, mas resolvi priorizar outros álbuns). Bom, nada melhor que começar uma lista de músicas maconhísticas do que com o álbum mais marofado que eu ja ouvi. É uma coletânea de 3 discos, com músicas de vários estilos de reggae, todas declamando seu amor, adoração, carinho e ternura pela maconha.

Peter Tosh – Legalize it

Fonte: http://www.riquedoreggae.com/

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Genuino descendente dos Wailers, Peter Tosh usa aqui seu reggae roots decentíssimo para levantar a bandeira da legalização da cannabis. A faixa título desse disco é o manifesto do movimento pro-canabbis. Fora que a capa do disco é fantástica! Peter Tosh foi, junto com Bob Marley e Bunny Livingston, o fundador do The Wailers. Saiu do grupo em 1973 e esse foi seu album de estréia na carreira solo.

Cypress Hill – Los Grandes Exitos en Español

Fonte: http://maniacopordownload.blogspot.com/

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Como não só de reggae vive um cabeçudo, aqui está um ótimo disco de rap latino chapado. Lançado em 1999, esse álbum é uma coletânea das melhores músicas da banda de rap californiana Cypress Hill cantadas em espanhol (como o próprio nome diz). O Cypress Hill é uma banda polêmica, e inclui em suas letras a apologia às drogas e a luta pela legalização da maconha nos Estados Unidos. Nesse disco, o recado é dado em Yo Quiero Fumar, Loco en el Coco (q eu prefiro na versão em inglês, Insane in the Brain) Dr. Dedoverde e Marijuano Locos.

Bezerra da Silva – O Samba Malandro de Bezerra da Silva (Box 4 cds)

Fonte: http://www.cdscompletos.net/

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Mestre Bezerra da Silva tem em sua discografia cerca de 32 discos. Começou a carreira cantanto côco, mas logo pôs os dois pés no samba de partido alto e lá fez escola e virou professor. Bezerra fez sucesso no samba sempre cantando composições de artistas desconhecidos, muitos deles assinados com codinomes. Sempre buscou músicas que fossem cronicas do cotidiano das favelas do Rio de Janeiro, seu habitat, e um dos seus temas favoritos era a maconha. Músicas como Garrafada do Norte, A Semente, Malandragem dá um Tempo, Se Leonardo da Vinte e Nunca Vi Ninguém Dar Dois em Nada, todas presentes nesse box-coletânea – são sambas maconheiros de um dos caras que primeiro inseriu essa temática na música brasileira.

Planet Hemp – Usuário

Fonte: http://musicgratis.blogspot.com

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Rap, Rock’ n Roll, Psicodelia, Hardcore e Ragga. Assim se auto-define o Planet Hemp. Banda carioca surgida em 2003, fez história no rock e no rap nacional, pelo som cabuloso e pela fumaça que faziam. A polêmica era tanta que seus integrantes foram presos pela velha e boa apologia às drogas, que levantou a não superada discussão sobre a liberdade de expressão na democracia brasileira. Assisti um show deles quando tinha uns 16 anos. Era tanta fumaça que mal dava para ver o palco. A banda foi influenciada por todos os artistas listados acima, desde o reggae do Tosh até o samba do Bezerra, passando pelo rap maconhístico do Cypress Hill.

O Fantástico e a criminalização moral da cannabis

7 Julho , 2008

Hoje, no Fantástico da TV Globo, foi transmitido um episódio de um programa da NBC de Londres no qual um adolescente de 16 anos tinha sérios problemas familiares e era usuário de cannabis. O programa era tipo um Super Nanni para adolescentes problemáticos, onde psicólogos e uma equipe de TV acompanham uma familia desestruturada e propõem medidas para melhorá-la. Em tal episódio, o adolescente tinha uma péssima relação com a família, principalmente com a mãe, não estudava, fazia bicos, era agressivo, desmotivado, irresponsável e era usuário diário de maconha. A mãe era uma bem sucedida decoradora e estava desesperada em relação ao comportamento do filho, mesmo mantendo uma posição  permissiva e pouco disciplinadora em relação a ele. Enfim, uma familia em crise.

O problema, ao meu ver, foi o seguinte: não houve nenhuma pista sobre quais fatores estavam proporcionando tal crise nessa familia inglesa. Não se falou sobre o pai do adolescente, nem sobre problemas recentes que este pode ter passado. Não houve espaço para conclusões sobre a complexa crise familiar noticiada, pois desde o inicio da reportagem, já foi apresentado ao público o único vilão: a maconha.

A notícia foi iniciada com Zeca Camargo apresentando o quadro da criminalização da cannabis na Inglaterra, onde a erva é considerada pela lei como uma droga leve, de categoria C entre as substâncias proibidas. Em seguida, apresentaram o adolescente, que era um bom aluno na infância, era ótimo em rugby, atletismo e sei la o que – com direito a fotos de criança saudável e sorridente, troféis, medalhas etc – mas que hoje parou de estudar, saiu da escola “e passa o dia fumando maconha”. Depois foram malcriações, choros de mãe, portas chutadas, padrasto com cara de bosta, conselhos de psicólogos e adolescentes fumando maconha com cara de deboche. Por fim, uma enquete com os telespectadores perguntando o que fazer em uma hora dessas: deixar o garoto sair dessa sozinho, uma outra opção que eu não lembro, e internar o cara em uma clínica, que, sem muitas surpresas, ganhou bem. Estava legitimado pelo conhecimento da população, quase um plebiscito: foi a maconha que acabou com aquelas pobres vidas.

Estava trocando uma idéia com minha namorada sobre a reportagem e ela fez a mais importante provocação sobre o tema, que foi a ligação entre a já conhecida caretice da Globo e as proibições da Marcha da Maconha. A idéia do relaxamento das leis anti-droga na Inglaterra associado irresponsávelmente ao sensacionalismo incoerente da “maconha destruidora de lares” nos dá uma dica sobre o cadinho falso-moralista presente nas proibições dos debates sobre a legalização da cannabis no Brasil. Como discutir legalização de drogas quando um dos maiores formadores de opinião do país faz acreditar que a maconha é capaz de acabar com a estabilidade de uma família (po, justamente a família)? Como discutir os benefícios sociais da legalização se é lançada a idéia de uma ligação direta entre e simples relaxamento das leis anti-droga em um país e a situação de caos familiar?

Proibição da marcha e o retrocesso democrático.

7 Maio , 2008

Pois é, galera!

Como todos devem estar sabendo, nesse domingo, dia 04, não aconteceu a Marcha da Maconha em Salvador. O evento – que tinha a intenção de reabrir o debate no espaço público sobre os prós e contras da legalização das drogas na sociedade civil – foi proibido no dia 28/04 pelo promotor de justiça Paulo Gomes Júnior, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais, do Ministério Público da Bahia. O argumento foi que a Marcha da Maconha em Salvador atua “induzindo, instigando ou auxiliando as pessoas a consumirem drogas de forma indevida”. Rolou o bom e velho argumento de “apologia às drogas”.

A Marcha náo foi só proibida aqui em Salvador. Liminares parecidas foram emitidas pelos Ministérios Públicos, proibindo a manifestação em Cuiabá, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Rio de Janeiro e São Paulo. Das 13 cidades onde a malucada se organizou para discutir o tema, eles puderam realmente se manifestar em 4: Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Vitória.

A Marcha é um evento global, realizada em 239 cidades ao redor do mundo, e só no Brasil viu-se esse esforço do poder público para proibi-la. Proibi-la repressivamente. Aqui em Salvador, oito pessoas foram detidas no Campo Grande nesse domingo, quando tentavam fazer um protesto pacífico sobre o tema. Segundo a polícia, a ordem era deter que possuísse drogas ou faixas/cartazes/panfletos/etc. Em Curitiba foram seis detidos, no Rio, cinco foram detidos por divulgar a marcha e um foi detido na manifestação. Em Fortaleza foram dezenove manifestantes presos.

Bom, gente, a ordem foi essa. O que se viu foi o receio de ampliar o debate sobre a legalização das drogas em nossa sociedade. A Marcha tinha a idéia de levar tal discussão para fora do nível institucional – sempre marcado por grandes desconhecimentos sobre o tema. A Marcha era legal, constitucional e responsável. A organização sempre se preocupou em não baixar a discussão para o nível do “nós vamos fumar mesmo” para não ser pegos por um argumento impensado de apologia às drogas. Era um risco pensado. E a ação manifestada do receio de tal ampliação do debate foi cara, muito cara para a recente democracia brasileira.

Ao proibir uma manifestação pacífica e constitucional, o estado democrático brasileiro perdeu uma grande oportunidade de realizar uma discussão ampla e decente sobre os danos da proibição do comércio legal de drogas no país. De quebra, se portou como um estado de excessão, ao negar a liberdade de reunião, de manifestação e de expressão, previstas na Constituição e que é um dos pilares que fazem do Brasil um Estado de Direito.

Daqui tiramos ao menos duas lições sobre a rastejante democracia do país e sobre a discussão pública de um tema complicadíssimo – porem, muito relevante – que é a discriminalização do uso de entorpecentes:

A primeira é que a proibição do uso de drogas no país vem acompanhada com a proibição de discutir sobre o assunto. Isso se relaciona com o teor da discussão que vem sendo feita até então: moralista e irracional. Não há pretensões a respeito de um debate aberto sobre o tema, democrático e pautado em argumentos sérios. Ao proibir uma manifestação que se prestava a isso, o poder público declarou não estar preparado para tal abertura sobre o tema. Os debates devem continuar no ranço moral onde podem ser controlados. A necessidade de tal debate é cada vez mais urgente, mas simplesmente não há abertura, não há espaço.

A outra lição é também importante: a recente democracia brasileira ainda não está suficientemente madura para que se assegure a liberdade de expressão. Há ainda uma mentalidade dominante no aparelho dito democrático que diz que certas discussões democraticamente ampliadas podem ser maléficas à sociedade. Não chegou ao entendimento de que, em uma democracia, não há discussões públicas que são maléficas. A liberdade de manifestação e de expressão dizem respeito a isso: toda discussão pública deve ser levada à exaustão, pois ela tem um importante papel para as decisões tomadas pelo governo. É imensamente relevante para uma democracia a exposição pública de idéias divergentes sobre um tema, e a partir da discussão e do esclarecimento dessas divergências – levada a cabo por um exaustivo processo de debate – que deve se pautar a tomada de decisão dos estados democráticos. Aqui, a Marcha da Maconha não vem reivindicar apenas a necessidade de descriminalizar o uso da cannabis, e sim a necessidade latente de pautar uma discussão clara e abrangente sobre o tema. Porém, fez-se necessário rebaixar qualquer manifestação desse tipo ao “incentivo ao uso de drogas” para legitimar a proibição de manifestação e de expressão. Não é a primeira vez que tal calaboca foi utilizado para coibir a liberdade de expressão relacionada a maconha, lembremos da prisão do Planet Hemp em 1997. A verdade é essa: não temos espaço, em nossa democracia fajuta, para uma discussão inteligente e massiva sobre a legalização das drogas. Esse espaço continua fechado, anos depois da abertura democrática do país. Por isso que a discussão sobre a descriminalização da maconha deve se pautar em uma defesa prévia: a da liberdade de expressão. Os coordenadores da marcha já sacaram isso: não da pra discutir legalização de drogas em um país institucionalmente fechado para o tema. Por isso tais coordenadores estão organizando, para o dia 10/05, no mesmo horário e local que ocorreria a Marcha da Maconha, uma outra marcha, agora pela liberdade de expressão.

Bom, aqui em Salvador não rolou Marcha, mas ainda está acontecendo, em toda essa semana, o fantástico II Seminário “Maconha na Roda”, na UFBA, com excelentes discussões a respeito do tema. Infelizmente não estou com tempo de participar, mas vou la ver uma mesa na sexta.

Maconheiros de Salvador: Uní-vos

25 Março , 2008

marcha.jpg

Um espectro ronda Salvador. Mais do que um espectro: uma fumaça densa e cheirosa, vinda de várias rodas de jovens (ou não), de sentidos alterados, bocas secas e uma fome de lascar. Salvador é a cidade mais maconhística que eu conheci. Dando um rolê por aí, da pra flagrar pessoas fumando nas praias, nas ruas, nos carros, nas casas, sentadas nas esquinas… Da pra flagrar pezinhos de maconha plantados em quintais… uma beleza!

Dia 4 de maio, num domingo, vai acontecer a primeira marcha a favor da legalização da maconha em Salvador. Sairá da praça Campo Grande às 14 hrs, e como esse blog é a favor da legalização das drogas, não vou deixar de comentar (e de comparecer). A marcha acontecerá ainda em mais 9 cidades: Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Brasília/DF, Belo Horizonte/MG, Fortaleza/CE, João Pessoa/PB, Porto Alegre/RS, Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/SP.

A Marcha da Maconha é uma iniciativa que começou em Nova York em 1999 com a realização da 1ª Milion Marijuana March, e vem ganhando o mundo desde então. No Brasil, a primeira passeata a favor da legalização da maconha aconteceu no Rio de Janeiro, no primeiro domingo de maio de 2002. A passeata é a favor de uma discussão franca, aberta e ampla sobre a relação da cannabis na cultura jovem e da sua retirada da lista das substâncias proibidas no Brasil.

Em 2006 ocorreram protestos em 233 cidades ao redor do mundo incluindo 7 cidades no Brasil. Aqui em Salvador, a passeata foi substituida por um seminário sobre o tema intitulado I Seminário “Maconha na Roda”: Políticas públicas em diálogo com a sociedade civil, em plena Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, realizado nos dias 4 e 5 de maio de 2007. Um seminário sobre maconha na universidade? Só aqui mesmo.

Fiquei sabendo do encontro logo quando cheguei aqui e dei um pulo na UFBa pra saber como era. Desacreditei, lógico, e nos dias de debate fui lá para sacar o que ia acontecer. Debate decente, compromissado, bem organizado e muito competente. O cara que estava organizando o evento era o Sérgio Vidal (que meses depois vi na tv, no MTV Debate sobre o assunto) e o grupo que ele participa, Ananda – Associação Multidisciplinar de Estudo e Ação em Redução de Danos para os usos de Plantas Cannabaceae. Vidal convidou várias pessoas para compor a mesa, e debateu temas diversos sobre a cannabis, como o plantio e os usos comerciais do cânhamo no Brasil Colonial até 1932 (ano da proibição), o histórico da proibição da erva no Brasil e no mundo, a diversificação da planta, as leis sobre o uso de drogas no Brasil, técnicas de plantio, histórico do plantio in door, redução de danos para usuários de cannabis, uso da planta em comunidades ribeirinhas do rio São Francisco, aproximações entre a maconha e o candomblé, a cultura rastafari em Salvador,etc. Tudo que um maconheiro quer saber sobre o que está usando.

Estavam presentes muito mais pessoas do que eu imaginei (mas não tantas assim). Todos guardaram seus baseados para o lado de fora do anfiteatro, respeitando a universidade que cedeu o espaço, além de não dar argumentos de mão beijada para aqueles que torcem o nariz para eventos como esse (“esses moleques foram la só pra ‘maconhar’”). Alias, aprendi (além de outras várias coisas) q maconha era um nome pejorativo para a erva, e veio do mesmo lugar onde veio “macumba”. A proibição da erva foi uma das formas de controle da população negra e minoritária no país. Controle através da repressão aos hábitos e aos costumes da população negra, indígena e das minorias, legitimadas por teses pseudo-científicas e racistas. A mesma instituição responsável pelo controle da proibição do uso da cannabis no Brasil era a mesma que repreendia a prática de cultos afros no Brasil (e da prostituição).

Bom, esse ano não tem seminário, mas tem marcha. É um bom momento para a troca de informações entre os usuários, além de uma boa oportunidade para demonstrar publicamente que o uso da erva faz parte da cultura da cidade, e deve ser debatida abertamente, sem hipocrisias ou cala-bocas de “apologia às drogas”. Vão de mente aberta, maconheiros ou não. Eu vou, e depois conto aqui como foi.

Segue alguns links para quem quer saber mais (muito mais) sobre o “cigarrinho de artista”:

Marcha da Maconha – Sitio oficial da marcha no Brasil. Lá, além de notícias sobre as passeatas no Brasil, tem informações importantes sobre o uso da erva, como medidas de redução de danos (importantíssimo, todo maconheiro tem q ler), leis proibicionistas no Brasil, notícias das passeatas passadas, etc.

GrowRoom – Na minha opinião, o Growroom é o melhor site de informações sobre a cannabis no país. Lá encontra-se todas as notícias relacionadas à erva. Tem um fórum muito bom, destinado ao debate responsável sobre a planta e seus usos. Pode-se encontrar informações de variados tipos, desde políticas públicas até sobre sedas ou técnicas de plantio. Use responsavelmente. Não vá me perguntar “onde conseguir” nem queimar o trabalho de seis anos dessas pessoas.

Tarja Preta – Blog da revista em quadrinhos carioca sobre a cultura da maconha. Foi dela que saiu a idéia do impagável Capitão Presença (personagem em copyleft criado por Arnaldo Branco), salvador da pátria de maconheiros descamisados, seu fiel escudeiro Super Aba e seu cachorro Malhado.

Observatório da Cannabis – Blog soteropolitado disposto a discutir sobre a erva. É o blog de discussões da Ananda – Associação Multidisciplinar de Estudo e Ação em Redução de Danos para os usos de Plantas Cannabaceae. Lá tem uma bibliografia ótima em ebook para quem quiser pesquisar o tema, além de uma boa relação de links.

Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Substâncias Psicoativas (Giesp) – Grupo de estudos sobre substâncias psicoativas? Exatamente. Grupo interdisciplinar sócio-antropológico certificado pela UFBa, liderado pelo professor Edward MacRae e cadastrado no no Diretório de Grupos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bom, ja sabem: cada link desses contém vários outros links. Então acessem, acessem e acessem. E quem for de Salvador, nos encontramos na marcha.

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