Meu peito é de sal de fruta fervendo num copo d’agua!

By Homem Verde

Bom, vou tentar começar aqui (e nunca acabar, como em todas as minhas tentativas de posts temáticos) a escrever sobre os shows que eu consegui ver aqui em Salvador.

Eu já assisti alguns, e todos muito bons… antes de vir pra cá, morava em uma cidadezinha que não oferecia porcaria de show nenhum… (um dia teve Gilberto Gil, que eu não fui… Teve Cordel do Fogo Encantado, q eu fui e curti demais, mas foi só isso).

Cou começar com o show que eu vi ontem a noite: o show do Tom Zé, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Primeiro eu acho que fui para esse show por resignação. Eu queria mesmo era ir para o show do João Gilberto, sexta que vem, mas por ingenuidade e falta de vontade de passar a noite numa fila para comprar ingressos – somada a canalhice das vendas de ingressos no TCA – fiquei três horas na fila e não consegui nem chegar perto de um ingresso… foi triste… estava me imaginando nesse show desde maio.

Daí, descobri que ia ter o show do Tom Zé, do disco Danç-eh-sá, disponível gratuitamente no site da Trama. Curto muito Tom Zé… Acho que ele é um gênio da música brasileira, supercriativo, mas ele é um doido!! A fase que eu curto muito dele é a de 68 a 76, e pensei que ele nunca mais ia tocar essas músicas novamente. Antes do show estava conversando sobre isso com minha mulher. A gente gosta de umas fases antigas de artistas que ainda estão na ativa. Gil de 68, 69. Jorge Ben de 63 a 76 etc. Achava que eles nunca mais iriam tocar essas músicas em um show, pois eles têm uma carreira muito extensa, e essas fases nem são as mais importantes da carreira deles (são para mim!). Até falei que o Gil devia voltar com uma turnê de 68/69, fase rock’n roll psicodélico… (Gil, se tiver de bobeira lendo esse blog, pense nisso irmão.. hahahahaha)

Mas então, por isso nem fiquei empolgado, em um primeiro momento, de ir ver Tom Zé. Não conheço muito os novos discos dele, e achava q só ia dar música nova. Aí, lendo jornal ontem, descobri que o ingresso era um quilo de alimento. Falei com minha mulher e resolvemos ir… era em um horário perfeito para show (18:00) e era sábado a noite, era a Concha Acústica e era, enfim, Tom Zé!

Eu gosto muito da Concha Acústica. É um lugar ao ar livre, relativamente pequeno, com uma arquibancada íngreme – mas que cabe muita gente -  e com um palco muito, muito baixo. Tem um lado todo legalize e outro mais família. Um dos melhores lugares que eu fui ver show. Da uma boa aproximação com o artista, e ele deve se sentir realmente bem ao estar quase no mesmo nível do público. O último show que o Tom Zé fez aqui em Salvador foi no começo do ano no Porto da Barra, numa homenagem à Tropicália, em um palco flutuante no mar que ficou muito longe do público. Ele disse em um jornal que demorava 15 minutos para ouvir os aplausos da platéia. Eu fui nesse show, mas tive que voltar antes dele tocar, pois estava de ônibus e o show começou muito tarde.

Então, chegamos na Concha, depois de descer a ladeira mais íngreme que eu já vi aqui em Salvador, compramos um latão de breja e esperamos. Ficamos vendo o público, bastante diversificado. Crianças de break light, senhoras de idade, velhos hippies, jovens descoladões, muitos cultizinhos etc. Quando decidimos entrar, lá estava o Tom Zé doido, de pé fora do palco, de cara com a platéia, com o microfone na mão e dando uma aula. O show fez parte de um evento produzido pela Coordenadoria de Ações Afirmativas, Educação e Diversidade da Universidade Federal da Bahia chamado Fórum Universidade, Juventude e Diversidade, e Tom Zé estava dando uma de palestrante. Falava de quando foi preso em Sampa pela ditadura. Ele era profissional do CPC aqui em Salvador, como diretor de música, mas quando pediram a ficha dele pros milicos da Bahia, estava limpa! Ficou abismado: “Como a ditadura queria melhorar o Brasil se nem minha ficha eles conseguiam? Eu era profissional do partido comunista, ganhava 30 cruzeiros por mês, e minha ficha saiu limpa? A Bahia nunca ajudou a ditadura”. E o interrogatório? Ele disse o seguinte: “No interrogatório me perguntaram: Você gosta da Hebe? Respondi: Gosto sim senhor! Depois perguntaram: E do Silvio Santos, você gosta? Gosto sim”. Que raios de interrogatório é esse?

Depois da palestra, o show começou com a banda de abertura: Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicletas. Banda decentíssima, faz uma rockeira com um pézão no samba. Já tinha ouvido eles no carnaval, em um show que eles fizeram no Rio Vermelho, mas ja estava muito doido, mal lembrava. Mas eles abriram o show com o Tom Zé no palco, e mandaram juntos a “Tô”, do “Estudando o Samba” de 1976…  Foi demais.

Algum tempo depois, o show principal. A Concha estava lotada. Não esperava tanta gente. Tom Zé entrou, com a cara pintada, aquelas roupas escalafobéticas e uma energia invejável. O cara é um passa mal no palco… pula, cai, grita, fala com os moradores vizinhos da Concha Acústica e comanda a platéia (e a banda). A banda, por sua vez, está sempre na corda bamba. Tem que ser ligeira, ficar ligada, pois o cara é imprevisível. Conversa com a platéia e depois vira e fala “toca aquela! Vai, Vai!”, e tem que tocar. Mas eles sabem segurar a bronca bem, já acompanham o cara há tempos.

Pensei que ele fosse fazer um show só do Danç-eh-sá. Já estava esperando as músicas sem palavra, embora eu soubesse que era impossível o Tom Zé fazer um show sem falar muito. Mas logo no começo ele mandou 2001, que ele fez em parceiria com Rita Lee e que foi gravada pelos Mutantes e pelo Gilberto Gil em 1969. Pirei. Nunca tinha ouvido ele cantado essa música, que eu curto muito. Fora q o cara é enérgico, performático, segura o público e faz todo mundo cantar baixinho, para não acordar a vizinhança. Lá pelo meio do show, ele mandou um “heim”, do estudando o samba. Onomatopéica também. Aliás, falam muito desse ultimo disco dele, mas ele sempre pirou nessa parada de minimalizar a letra das músicas. O “Estudando o Samba” é mais ou menos assim… As musicas tem quase todas os nomes monosilábicos, e mesmo em “Tom Zé” de 1970 ele ja pirava demais em incompreensões das palavras. O último disco dele foi um absurdo de tudo isso.

Outra música inacreditável que ele tocou foi a “Bush”. É uma música de protesto contra a guerra do Iraque, que eu ouvi em uma passeata que eu fui na paulista em 2003, com ele tocando (segundo ele, pela primeira vez) apenas voz e violão. Odiei a música!! Ela foi repetida umas tres mil vezes na passeata. E eu nem seguí a passeata inteira… Mas foi um dia bem marcante para mim e para minha mulher, e essa música até que me tras boas lembranças.

Cantou músicas novas também, tanto do disco recente quanto dos precedentes. Destaque para duas, que eu não conhecia e que, com ele cantando no palco, foi demais: “Nascer”, que fala do trauma de vir para esse mundo, e “12 14″ que ele fala da prostituição infantil. Músicas boas, vou correr atrás para achar.

Mas o melhor ficou pro finalzinho. Na última música do bis ele mandou o “Jimmy, Renda-se”, do disco de 70 (que eu ja postei no blog em um top 5 nacional). Quase toda a vez que eu e minha mulher ficamos esperando o show começar, tomando uma breja do lado de fora da Concha, nós conversamos sobre as músicas que os artistas não iriam tocar, mas que seria demais se tocassem. A principal que veio na minha cabeça foi essa. Eu gosto muito de “Jimmy, Renda-se”. Além da piração total com a lingua britânica, num embromation pra lá de macarrônico, é uma puta sonzera. Baixão marcado, boa variação ritmica… um rockão decentíssimo pro começo da década de 70. Outra música listada, das “são boas mas nem ele deve tocar mais” foi a “Tô”, primeira tocada da noite. Quando ele disse q a última música seria a Jimmy, Renda-se, eu desacreditei. O arranjo é totalmente outro, bem mais sossegado, mas foda-se! Eu curti demais ele ter tocado.

Bom, o show foi muito bom. Não esperava nada. Fui meio  que no “é um quilo de alimento e é Tom Zé”. Iria me arrepender muito de não ter ido.

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