Proibição da marcha e o retrocesso democrático.

Pois é, galera!

Como todos devem estar sabendo, nesse domingo, dia 04, não aconteceu a Marcha da Maconha em Salvador. O evento - que tinha a intenção de reabrir o debate no espaço público sobre os prós e contras da legalização das drogas na sociedade civil - foi proibido no dia 28/04 pelo promotor de justiça Paulo Gomes Júnior, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais, do Ministério Público da Bahia. O argumento foi que a Marcha da Maconha em Salvador atua “induzindo, instigando ou auxiliando as pessoas a consumirem drogas de forma indevida”. Rolou o bom e velho argumento de “apologia às drogas”.

A Marcha náo foi só proibida aqui em Salvador. Liminares parecidas foram emitidas pelos Ministérios Públicos, proibindo a manifestação em Cuiabá, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Rio de Janeiro e São Paulo. Das 13 cidades onde a malucada se organizou para discutir o tema, eles puderam realmente se manifestar em 4: Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Vitória.

A Marcha é um evento global, realizada em 239 cidades ao redor do mundo, e só no Brasil viu-se esse esforço do poder público para proibi-la. Proibi-la repressivamente. Aqui em Salvador, oito pessoas foram detidas no Campo Grande nesse domingo, quando tentavam fazer um protesto pacífico sobre o tema. Segundo a polícia, a ordem era deter que possuísse drogas ou faixas/cartazes/panfletos/etc. Em Curitiba foram seis detidos, no Rio, cinco foram detidos por divulgar a marcha e um foi detido na manifestação. Em Fortaleza foram dezenove manifestantes presos.

Bom, gente, a ordem foi essa. O que se viu foi o receio de ampliar o debate sobre a legalização das drogas em nossa sociedade. A Marcha tinha a idéia de levar tal discussão para fora do nível institucional - sempre marcado por grandes desconhecimentos sobre o tema. A Marcha era legal, constitucional e responsável. A organização sempre se preocupou em não baixar a discussão para o nível do “nós vamos fumar mesmo” para não ser pegos por um argumento impensado de apologia às drogas. Era um risco pensado. E a ação manifestada do receio de tal ampliação do debate foi cara, muito cara para a recente democracia brasileira.

Ao proibir uma manifestação pacífica e constitucional, o estado democrático brasileiro perdeu uma grande oportunidade de realizar uma discussão ampla e decente sobre os danos da proibição do comércio legal de drogas no país. De quebra, se portou como um estado de excessão, ao negar a liberdade de reunião, de manifestação e de expressão, previstas na Constituição e que é um dos pilares que fazem do Brasil um Estado de Direito.

Daqui tiramos ao menos duas lições sobre a rastejante democracia do país e sobre a discussão pública de um tema complicadíssimo - porem, muito relevante - que é a discriminalização do uso de entorpecentes:

A primeira é que a proibição do uso de drogas no país vem acompanhada com a proibição de discutir sobre o assunto. Isso se relaciona com o teor da discussão que vem sendo feita até então: moralista e irracional. Não há pretensões a respeito de um debate aberto sobre o tema, democrático e pautado em argumentos sérios. Ao proibir uma manifestação que se prestava a isso, o poder público declarou não estar preparado para tal abertura sobre o tema. Os debates devem continuar no ranço moral onde podem ser controlados. A necessidade de tal debate é cada vez mais urgente, mas simplesmente não há abertura, não há espaço.

A outra lição é também importante: a recente democracia brasileira ainda não está suficientemente madura para que se assegure a liberdade de expressão. Há ainda uma mentalidade dominante no aparelho dito democrático que diz que certas discussões democraticamente ampliadas podem ser maléficas à sociedade. Não chegou ao entendimento de que, em uma democracia, não há discussões públicas que são maléficas. A liberdade de manifestação e de expressão dizem respeito a isso: toda discussão pública deve ser levada à exaustão, pois ela tem um importante papel para as decisões tomadas pelo governo. É imensamente relevante para uma democracia a exposição pública de idéias divergentes sobre um tema, e a partir da discussão e do esclarecimento dessas divergências - levada a cabo por um exaustivo processo de debate - que deve se pautar a tomada de decisão dos estados democráticos. Aqui, a Marcha da Maconha não vem reivindicar apenas a necessidade de descriminalizar o uso da cannabis, e sim a necessidade latente de pautar uma discussão clara e abrangente sobre o tema. Porém, fez-se necessário rebaixar qualquer manifestação desse tipo ao “incentivo ao uso de drogas” para legitimar a proibição de manifestação e de expressão. Não é a primeira vez que tal calaboca foi utilizado para coibir a liberdade de expressão relacionada a maconha, lembremos da prisão do Planet Hemp em 1997. A verdade é essa: não temos espaço, em nossa democracia fajuta, para uma discussão inteligente e massiva sobre a legalização das drogas. Esse espaço continua fechado, anos depois da abertura democrática do país. Por isso que a discussão sobre a descriminalização da maconha deve se pautar em uma defesa prévia: a da liberdade de expressão. Os coordenadores da marcha já sacaram isso: não da pra discutir legalização de drogas em um país institucionalmente fechado para o tema. Por isso tais coordenadores estão organizando, para o dia 10/05, no mesmo horário e local que ocorreria a Marcha da Maconha, uma outra marcha, agora pela liberdade de expressão.

Bom, aqui em Salvador não rolou Marcha, mas ainda está acontecendo, em toda essa semana, o fantástico II Seminário “Maconha na Roda”, na UFBA, com excelentes discussões a respeito do tema. Infelizmente não estou com tempo de participar, mas vou la ver uma mesa na sexta.

3 Respostas para “Proibição da marcha e o retrocesso democrático.”

  1. Leandro Disse:

    Só lamentos, sou de Sampa compareci no Ibirapuera com minha família sem saber da “sabotagem”, fiquei de cara, tinha mais gambé que manifestante, normal por ser um tema polêmico, até que juntou uma malucada boa mas não o suficiente para se fazer ouvir. Vamos agora marchar pela liberdade de expressão, parece que estamos voltando no tempo, mas tudo bem, maconheiro é paciente e espera com cautela o momento certo.
    Fazem com o povo o que convém à eles, uma nação totalmente alienada, um povo ignorante sem vontade de lutar, desde o colégio o camarada não se preocupa em estudar muito por que sabe que de qualquer jeito vai passar de ano, é lamentável. O jeito é sair às ruas dançando o créu, e cantando “vamo beber, cair, levantar”, coisas desse tipo são a cara da nossa nação. Liberdade de expressão agora tem excessão!
    Um abraço inconformado, porém maconhado!!!

  2. Fabio Bianchi Disse:

    realmente foi um retrocesso gigante da nossa pequena democracia. deixei de ir a marcha aqui em são paulo, já prevendo o que o colega Leandro relatou.

    abraço pravti

  3. Arakin Disse:

    Se, por um lado, foi um retrocesso democrático, por outro, colocou o assunto na grande mídia (moralista)…o importante é não deixar cair no esquecimento! O CRIME ORGANIZADO (POLÍCIA E NARCOTRÁFICO) É CONTRA A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA! E VOCÊ?

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