O caso Isa

By Homem Verde

Nos últimos dias tem-se falado muito do assassinato de Isabella: uma garotinha de seis anos e tal (acho q não preciso explicar, preciso? Todo mundo sabe dessa história).

Cruel. A garota foi morta supostamente pelo pai e pela madrasta de forma covarde (claro, ela tinha 6 anos), bárbara e por motivos ainda não explicados. Só se sabe (todos sabem) que ela foi jogada do sexto andar depois de um estrangulamento, e morreu devido a queda.

Tal crime é agora a bola da vez. A trama envolvente, o clima de mistério, o acompanhamento da investigação tipo CSI, o delineamento dos “bandidos”, somados ao caráter cruel do assassinato de uma criança de seis anos formam um prato cheio para a imprensa. Todos os meios noticiários não passam um dia sem comentar o crime. São praticamente obrigados. Têm que falar, nem que seja da mãe da garota na missa de sétimo dia de sua morte.

Disso tira-se algumas conclusões equivocadas. A gigante especulação e espetacularização do caso, que ocupa o espaço das colunas policiais (que tem sei la que papel) e que segue minunciosamente os passos da investigação policial, me faz parecer o seguinte: 1° – é caso policial mais importante (!?!) do Brasil. 2° – A polícia investigativa (ou a polícia como um todo, por que não?) é extremamente eficaz, e seus métodos científicos modernos são suficientes para resolver esse caso. 3° – Se comprovado que o pai e a madrastas são culpados, a justiça brasileira é também eficiente, e não deixa culpados impunes nesse país.

A polícia vai a forra. Aproveitando o espaço midiático positivo, tão difícil em tempos de desestruturação da instituição policial, ela mostra serviço. Investiga, interdita, apreende, faz inquéritos, usa o tal luminol e a parafernalha toda, enfim, sob as câmeras, põe a coisa para funcionar. Tem que fazer. Ela vai precisar de toda sorte para que outra criança branca de classe média morra de forma cruel para ter outra chance como essa.

E as incursões violentas do Bope na Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, que mataram 14 pessoas em 4 dias? E o adolescente de 13 anos que assassinou um outro, de 16, aqui em Salvador? E o jornalista Roberto Cabrini, preso por tráfico de drogas com 15 papelotes de cocaína? Não há mais crimes no Brasil, só a morte de Isabella.

A Soninha, em seu blog, faz a pergunta mais pertinente sobre esse caso: “o que a mídia quer com o caso Isabella?”. O que a mídia quer? O que ela sempre quer? Vou arriscar: audiência. O noticiário não vai solucionar o caso. Eles não querem mostrar o bom trabalho da polícia. Tão pouco acham que esse é o caso policial mais relevante dos últimos tempos. Eles exploram, com direito a reconstituição do quarto da criança e da cena do crime. Em notícia na Folha Online, o caso Isabella aumentou em até 46% a audiência dos telejornais em relação à primeira quinzena de março. Na própria Folha Online, as notícias mais lidas nessas últimas semanas são sobre o caso.

O roteiro investigativo da trama policial tornou-se novela, Big Brother alheio. Quase um jogo de futebol onde todos torcem para o mesmo time, a “justiça” (assim, com aspas), manifestadas em xingamentos, faixas, pichações, ameaças, bloqueios e tentativas de linchamento. O público gosta. Faz questão de ir para a porta da delegacia ou da casa onde estavam o casal suspeito. Faz questão, querem justiça. Como se tivessem tirado nossa Isabella, nossa Isa, já que somos tão íntimos.

Uma resposta para “O caso Isa”

  1. Leandro Disse:

    Pois assim que é…nem o terremoto aqui em São Paulo conseguiu “tremer tanto como “nossa Isa”…….Vida que segue. Abraços.

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