A Língua brasileira.

By Homem Verde

Um português doido copiou em seu blog meu manual para baixar arquivos, e junto escreveu a seguinte frase “Está em Brasileiro mas eu não estou para traduzir este lero-lero todo para o verdadeiro Português. Desculpem!”

Em um primeiro momento fiquei puto. Pensei em ofendê-lo com pouca inteligência. Pensei em proibi-lo de fazer infame tradução para a lingua colonizadora, mas não sou disso. Fiquei dias pensando nessa coisa e por fim pensei: “é, realmente escrevi em brasileiro”.

Hoje, folheando o jornaleco, li uma notícia que, associada a esse fato, me motivou a escrever esse post. Haverá mais uma mudança ortográfica no Brasil que irá unificar a escrita do português daqui com os portugueses de lá. Tal mudança está relacionada com um acordo firmado entre os dois países em 1991, assinado por todos os países lusófonos (Brasil, Portugal, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Cabo Verte, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe). As transformações ortográficas ocorrerão em todos os países, inclusive Portugal, onde o tema está sendo exaustivamente debatido. Tal mudança está muito relacionada com a circulação de livros entre tais países, além de uma afirmação de entendimento da língua.

Para mim, não falamos português há tempos. As inúmeras influências herdadas de nosso passado de boa e velha mistureba lingística (línguas africanas+indígenas+árabes+usos cotidianos+usos regionais+ocaralhoaquatro) triturou o português e o transformou em uma outra coisa: o brasileiro. Isso é mais que normal. O inglês americano é diferente do Inglês britânico. O espanhol falado na américa latina (e entre os países da américa latina) é diferente do espanhol, embora existam tratados de unificação linguística. O uso do português é outra coisa, não é a linguagem escrita.

Não estou aqui pregando um nacionalismo “por uma língua nossa”. Não sou o Policarpo Quaresma. A transformação da língua no uso cotidiano é uma constatação, bem como o uso de estrangeirismos. Fora as gírias. Um cara, Michel de Certeau, em seu livro “A invenção do cotidiano: Artes de fazer” nos dá uma explicação bem contundente sobre esse fato. Segundo ele, o cotidiano é inventado pelas pessoas que lá vivem. Não há como sujeitá-lo. Não há regras que normatizem todo ele. É o espaço de quem não tem como inscrever suas determinações em lugar algum.

Antes de pautar seus estudos no poder de quem tem meios para se organizar e agir segundo uma lugar próprio, como os meios de comunicação, leis, poderes governamentais e a própria ortografia, e que pressupõe uma recepção passiva e generalizada, Certeau pretende estudar o contra-poder de pessoas ordinárias que fazem uso de astúcias sutís de resistências e de reapropriação desse espaço inscrito. Segundo essa lógica, ele faz uma distinção entre estratégia e tática. Estratégia é o agir de quem tem um espaço próprio e um poder de inserção hegemônica dessa ação. Já a tática é o agir sem espaço próprio: uma ação no terreno alheio, de reapropriação, de tornar familiar e compreensível a seu jeito o que é declaradamente o do outro. É a ação da multidão, de quem não tem um lugar de inserção de sua lógica, e tem que agir a partir do que lhes é imposto.

Onde eu quero chegar com essa lenga-lenga? Na língua, pô. A língua é um dos maiores exemplos dessa distinção de Certeau (mas não o único nem o mais louco). Essa é a diferença entre a língua escrita e a língua falada: a primeira vem de um processo “de cima para baixo” e tem na gramática sua forma de inserção e de perpetuação. Já a segunda é praticada, usada, como uma apropriação e uma subversão da primeira. A língua falada não é inscrita nem perpetuada em nenhum meio. É na rua e na vida cotidiana que ela é utilizada. Ela não é norma, é prática. Por isso que ninguem pode ter domínio dela. Ela escapa à formalização pois é viva, viva e fugidia.

É por essas e outras que eu digo: unifiquem o que quiserem… essa língua não é a nossa. Façam o que quiserem com ela. Nunca falaremos (e eu nunca escreverei aqui, viu portuga) o português. Sempre falaremos o brasileiro!

3 Respostas para “A Língua brasileira.”

  1. Neto Disse:

    Muito bacana mesmo Carinha!! hehehe que Portuga mais tosco esse cara! o pior é que deve escrever td errado como a maioria dos que usam a net! Pra ter uma cabeça dessas… hahahah

  2. Luciano Disse:

    Olá!

    visito o site ple primeira vez. entrei pelo blog som do roque.

    apreciei muito o texto sobre a “língua tática”, e tem muito a ver com pensamentos que estou desenvolvendo. vou procurar ler o autor Certeau, pois não conhecia!

    muito obrigado

    até

  3. Odirlei Disse:

    Gostei! “com certeau” e tudo ahaha E ainda ta virando referencia!!!
    VAmo q vamo!
    abraço

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