Maconheiros de Salvador: Uní-vos

By Homem Verde

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Um espectro ronda Salvador. Mais do que um espectro: uma fumaça densa e cheirosa, vinda de várias rodas de jovens (ou não), de sentidos alterados, bocas secas e uma fome de lascar. Salvador é a cidade mais maconhística que eu conheci. Dando um rolê por aí, da pra flagrar pessoas fumando nas praias, nas ruas, nos carros, nas casas, sentadas nas esquinas… Da pra flagrar pezinhos de maconha plantados em quintais… uma beleza!

Dia 4 de maio, num domingo, vai acontecer a primeira marcha a favor da legalização da maconha em Salvador. Sairá da praça Campo Grande às 14 hrs, e como esse blog é a favor da legalização das drogas, não vou deixar de comentar (e de comparecer). A marcha acontecerá ainda em mais 9 cidades: Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Brasília/DF, Belo Horizonte/MG, Fortaleza/CE, João Pessoa/PB, Porto Alegre/RS, Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/SP.

A Marcha da Maconha é uma iniciativa que começou em Nova York em 1999 com a realização da 1ª Milion Marijuana March, e vem ganhando o mundo desde então. No Brasil, a primeira passeata a favor da legalização da maconha aconteceu no Rio de Janeiro, no primeiro domingo de maio de 2002. A passeata é a favor de uma discussão franca, aberta e ampla sobre a relação da cannabis na cultura jovem e da sua retirada da lista das substâncias proibidas no Brasil.

Em 2006 ocorreram protestos em 233 cidades ao redor do mundo incluindo 7 cidades no Brasil. Aqui em Salvador, a passeata foi substituida por um seminário sobre o tema intitulado I Seminário “Maconha na Roda”: Políticas públicas em diálogo com a sociedade civil, em plena Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, realizado nos dias 4 e 5 de maio de 2007. Um seminário sobre maconha na universidade? Só aqui mesmo.

Fiquei sabendo do encontro logo quando cheguei aqui e dei um pulo na UFBa pra saber como era. Desacreditei, lógico, e nos dias de debate fui lá para sacar o que ia acontecer. Debate decente, compromissado, bem organizado e muito competente. O cara que estava organizando o evento era o Sérgio Vidal (que meses depois vi na tv, no MTV Debate sobre o assunto) e o grupo que ele participa, Ananda – Associação Multidisciplinar de Estudo e Ação em Redução de Danos para os usos de Plantas Cannabaceae. Vidal convidou várias pessoas para compor a mesa, e debateu temas diversos sobre a cannabis, como o plantio e os usos comerciais do cânhamo no Brasil Colonial até 1932 (ano da proibição), o histórico da proibição da erva no Brasil e no mundo, a diversificação da planta, as leis sobre o uso de drogas no Brasil, técnicas de plantio, histórico do plantio in door, redução de danos para usuários de cannabis, uso da planta em comunidades ribeirinhas do rio São Francisco, aproximações entre a maconha e o candomblé, a cultura rastafari em Salvador,etc. Tudo que um maconheiro quer saber sobre o que está usando.

Estavam presentes muito mais pessoas do que eu imaginei (mas não tantas assim). Todos guardaram seus baseados para o lado de fora do anfiteatro, respeitando a universidade que cedeu o espaço, além de não dar argumentos de mão beijada para aqueles que torcem o nariz para eventos como esse (“esses moleques foram la só pra ‘maconhar’”). Alias, aprendi (além de outras várias coisas) q maconha era um nome pejorativo para a erva, e veio do mesmo lugar onde veio “macumba”. A proibição da erva foi uma das formas de controle da população negra e minoritária no país. Controle através da repressão aos hábitos e aos costumes da população negra, indígena e das minorias, legitimadas por teses pseudo-científicas e racistas. A mesma instituição responsável pelo controle da proibição do uso da cannabis no Brasil era a mesma que repreendia a prática de cultos afros no Brasil (e da prostituição).

Bom, esse ano não tem seminário, mas tem marcha. É um bom momento para a troca de informações entre os usuários, além de uma boa oportunidade para demonstrar publicamente que o uso da erva faz parte da cultura da cidade, e deve ser debatida abertamente, sem hipocrisias ou cala-bocas de “apologia às drogas”. Vão de mente aberta, maconheiros ou não. Eu vou, e depois conto aqui como foi.

Segue alguns links para quem quer saber mais (muito mais) sobre o “cigarrinho de artista”:

Marcha da Maconha – Sitio oficial da marcha no Brasil. Lá, além de notícias sobre as passeatas no Brasil, tem informações importantes sobre o uso da erva, como medidas de redução de danos (importantíssimo, todo maconheiro tem q ler), leis proibicionistas no Brasil, notícias das passeatas passadas, etc.

GrowRoom – Na minha opinião, o Growroom é o melhor site de informações sobre a cannabis no país. Lá encontra-se todas as notícias relacionadas à erva. Tem um fórum muito bom, destinado ao debate responsável sobre a planta e seus usos. Pode-se encontrar informações de variados tipos, desde políticas públicas até sobre sedas ou técnicas de plantio. Use responsavelmente. Não vá me perguntar “onde conseguir” nem queimar o trabalho de seis anos dessas pessoas.

Tarja Preta – Blog da revista em quadrinhos carioca sobre a cultura da maconha. Foi dela que saiu a idéia do impagável Capitão Presença (personagem em copyleft criado por Arnaldo Branco), salvador da pátria de maconheiros descamisados, seu fiel escudeiro Super Aba e seu cachorro Malhado.

Observatório da Cannabis – Blog soteropolitado disposto a discutir sobre a erva. É o blog de discussões da Ananda – Associação Multidisciplinar de Estudo e Ação em Redução de Danos para os usos de Plantas Cannabaceae. Lá tem uma bibliografia ótima em ebook para quem quiser pesquisar o tema, além de uma boa relação de links.

Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Substâncias Psicoativas (Giesp) – Grupo de estudos sobre substâncias psicoativas? Exatamente. Grupo interdisciplinar sócio-antropológico certificado pela UFBa, liderado pelo professor Edward MacRae e cadastrado no no Diretório de Grupos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bom, ja sabem: cada link desses contém vários outros links. Então acessem, acessem e acessem. E quem for de Salvador, nos encontramos na marcha.

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Uma resposta para “Maconheiros de Salvador: Uní-vos”

  1. sandro Disse:

    Edito uma revistinha pros malucos aqui de sampa desde 2003, chama ZERO PALA, não sei se você já viu mas acho que nunca chegou aí. Se precisar de alguma coisa me manda um e-mail
    Quem sabe até mando umas tiras pra você, gostei do blog.
    Abraço
    cintrasandro@hotmail.com

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