Como citado só de passagem no último post, não sou de Salvador. Sou de uma pequena cidade chata do interior paulista, e vim com minha namorada para Salvador em março de 2007. Foi um grande e delicioso choque, como se tivéssemos nos mudado para um outro país de (quase) mesma língua. Não fazíamos idéia do que iríamos encontrar pela frente, pois eu nunca tinha vindo pra cá antes e minha namorada só conheceu Salvador quando criança.
Como sou muito interessado em música e já estava fazendo algumas pesquisas sobre música brasileira, foi nela que busquei uma primeira impressão sobre a cidade, e foi pela música que, de uma forma não consigo explicar, tive minhas primeiras assimilações sobre a cultura soteropolitana. Pensando na importância que essas músicas tiveram pra mim, resolvi listar os principais albuns dessa minha assimilação, e como esse blog é a favor do compartilhamento de arquivos (mal) protegidos pelo direito autoral, segue o link de onde encontrar o album na net, é só clicar no nome. Os links não são meus, não sou responsável por eles (se quebrar, quebrou). Foram encontrados em blogs e comunidades de pessoas abençoadas e generosas, dispostas a favorecer a livre distribuição de bens culturais na Internet. Segue meus agradecimentos a tais pessoas (pois se não fossem elas, nem eu teria acesso a tais músicas), e depois de cada link, segue a fonte.
Essa lista é pessoal e sua escolha é arbitrária, baseada no meu gosto musical. Vocês conhecem o ditado: “gosto é que nem cu…”, cada um tem o seu, mas quem quiser, tiver vontade ou é chegado pode compartilhá-lo com os outros. Outra coisa: essa lista é horizontal. Não está listada por ordem de importância. Então, lá vai:
Gilberto Gil (1968) – Gilberto Gil.
Fonte: http://sombarato.blogspot.com/
Esse talvez seja, para mim, o album mais tropicalista de todos os tempos, ja começando pela capa. Gilberto Gil, com a preciosa ajuda de sua trupe – Os Mutantes e Rogério Duprat – rompeu com sua estética “bossa-novista” dos discos anteriores e encerrou sua guerra contra a guitarra elétrica. Derrota de Gil, vitória da guitarra e nossa. Rockão, popular, regional e global. Tudo que a antropofagia tropicalista tem direito. Me interessou muito a inserção de lugares, bairros, ruas, praças, etc. de Salvador em suas letras (em Domingo no Parque ele fala que José foi fazer, no domingo, “um passeio no parque/ lá perto da Boca do Rio“, bairro soteropolitano, onde, em janeiro desse ano, foi assassinado o trapezista, escrito no post anterior). Depois disso (achei que) descobri que isso é algo inerente à música popular, que foi conservado nas experiências musicais que buscavam mesclar o regional como pop. Está em Caetano Veloso (em Tropicália “No pátio interno há uma piscina/Com água azul de Amaralina“, praia da orla de Salvador, depois de Rio Vermelho. E também em Beleza Pura: “Moça prêta do Curuzu Beleza Pura! Federação Beleza Pura! Boca do Rio Beleza Pura!”. Curuzu é uma comunidade situada no bairro da Liberdade, onde fica o importante bloco afro Ilê Aiê, e Federação é o bairro onde moro hoje. Liberdade e Federação são considerados os bairros mais negros de Salvador). Está também em Chico Science e Nação Zumbi, também na mistura das músicas regionais pernambucanas com o rock (em Rios Pontes e Overdrives: ” É macaxeira, Imbiribeira, Bom pastor, é o Ibura, Ipseb, Torreão, Casa Amarela, Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, BoaVista, Dois Irmãos. É Cais do porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe, CDU, Capibaribe, é o Centrão. Eu falei!”. São todos bairros de Recife, e só fez sentido para mim quando fui visitar a cidade, parei na frente de um ponto de ônibus em Boa Viagem e li a lista de bairros onde passavam os coletivos).
Penso nisso como uma mensagem cifrada, disposta a dar uma maior significação à localidade e à regionalidade. Talvez seja importante para as pessoas da cidade (foi importante para mim) se verem inseridas em uma música de alcançe nacional, além do fato de que tais músicas fazem mais sentido e dizem mais a respeito delas do que do resto do público. “A música é brasileira, mas é daqui!”.
No album, meus destaques são: “Pega a voga, cabeludo” viageira doida, gravada em um só take e em quatro canais, com um excelente improviso dos Mutantes; “Ele falava disso todo dia”, “A coisa mais linda que existe”, música de Torquato Netto, em uma versão excelente de Gil e cia, linda, que por algum motivo faz muito sentido pra mim e diz muito sobre a cidade; “Questão de ordem”, outro rockaço, sarcasticamente panfletária e militante “em nome do amor”; e por fim “A luta contra a lata ou a falência do café”, psicodelia acústica (?!?), teatral e brincalhona, que acaba com a revolucionária (em 1968) pergunta de algum mutante: “você também põe drogas no seu café?”
Gilberto Gil (1969) – Gilberto Gil
Fonte: http://sombarato.blogspot.com/
Gilberto Gil não hesitou em dar um nó em nossas cabeças antes de partir exilado para Londres, em 1969. Gravado às pressas, esse disco, mais psicodélico do que o anterior, é uma outra pérola do absurdo do tropicalismo. Gravações como “17 léguas e meia” – de Carlos Barroso e Humberto Teixeira e gravado também por Luiz Gonzaga – ganharam a roupagem antropofágica de Gilberto Gil. Gravado e lançado no mesmo ano em que o homem pisou na lua, sua maior temática é a ficção científica. Canções como 2001, de Tom Zé e Rita Lee, Cérebro Eletrônico, Futurível e Objeto Semi-identificado, Vitrines versam sobre astronautas, mutantes, máquinas pensantes e OVNIS. Obra prima de Gil, mesmo que inacabada.
Expresso 2222, Gilberto Gil (1972) (Não achei o link. Logo faço o upload e coloco aqui)
Fim da minha própria trilogia Gilberto Gil. Disco fantástico, gravado depois de sua volta do exílio. Ja começa arrebentando com os pífanos de “Pipoca Moderna”, e depois é só alegria. Menos doido e mais incorpado do que os outros dois descritos aqui, esse disco contém pérolas para mim. “Back in Bahia” me lembra meus amigos na Inglaterra, alem de enumerar, em um rock/blues descentíssimo, o q tem de bom aqui. “Oriente” dava frio na barriga da minha namorada quando Gil dizia “oriente rapaz, onde vai ser seu curso de pós-graduação”. “Ele e Eu”, uma música em que Gil complexizava sua relação com Caetano, fazia muito sentido pra mim quando ainda morávamos na Barra, a 3 minutos da praia do Porto da Barra, cantada por ele. Tem ainda “Cada macaco no seu galho”, do Riachão, cantada como uma afirmação de ser baiano.
Existem ainda outras músicas cantadas por Gil importantes para mim aqui, como “Tradição”, que está no album Cidade de Salvador. Com um violão destoado, conta a história de uma garota “do barulho”, que morava no Barbalho, conhecida no lotação de Liberdade, que passava pelo ponto dos Quinze Mistérios, indo do bairro para a cidade, que era o largo do Terreiro de Jesus, no Pelô. Falava também do namorado da garota, um cara inteligente pelo jeito de pogar no bonde e diferente por sua calça americana arranjada no contrabando. A música é um retrato de um tempo passado de Salvador, e versa sobre os lugares e os costumes daqui. Praticamente uma deriva geo-histórica pela cidade. O album ainda tem “Ladeira da Preguiça“, uma ladeira que sobe da Lafayete Coutinho para o Dois de Julho, criada para ser mais uma opção de escoamento de mercadoria do porto para a cidade e apelidada pelos escravos.
Bom, chega de Gil.
Ferro na Boneca – Novos Baianos (1970)
Fonte: http://aisporecords3.blogspot.com
Primeiro disco dos Novos Baianos. Rockera hippie e cannabinística da melhor. Outra doideira do começo ao fim, tipo um Hendrix com Baião, flertando com o frevo, tango, mambo, orquestra, e outras maluquíces. Esse tem menos influência de músicas brasileiras do que os posteriores. Foi feito aqui, antes do lendário encontro do grupo com João Gilberto, que ajudou a por os “pingos nos is”. Adoro “Dona Nita e Dona Helena”, e fico imaginando de onde veio essa letra. Fala de duas senhoras, em sua sala de visitas. Talvez elas morem juntas. Há uma pequena descrição da sala, com jarro de flores e um coração de jesus na parede. Depois dá um despiste: “Dona Nita deu a dica”?!? E outra: “Dona Nita, vc podia bater, bater uma caixa legal”. Gosto muito também de “O Samba me traiu” e os seus metais. Além do refrão: “também não me pergunte muito não, o que sei é isso mesmo”. A maioria das letras desse disco, escritas em sua grande parte por Luiz Galvão, são incompreensíveis pra mim, mas o disco é demais!
Acabou Chorare – Novos Baianos
Fonte: http://aisporecords3.blogspot.com
Esse sim! Original, hipercriativo, lindo, inovador, ou sintetizando todos seus adjetivos em um palavrão: fudido! Resultado do papo com João Gilberto, o disco é considerado pela revista Rolling Stonnes o melhor disco já feito no Brasil. Outra pérola do tropicalismo, mistura de uma pesquisa séria na música nacional com musica pop da época. Destaque meu para Swing do Campo Grande, que é uma linda praça no começo do centro de Salvador, considerada, antes da abertura de outros circuitos, o coração do carnaval.
Fonte: http://somdoroque.blogspot.com
Meu primeiro e feliz encontro com o samba da Bahia foi esse. Antes de vir pra cá, estava me envolvendo um pouco com o samba de raíz, mas só conhecia o samba paulista e o carioca. Pensei: estou indo pra terra do samba e não conheço nada de lá. Baixei esse album. Riachão é um cara que escreve cronicas engrassadíssimas sobre a cidade de Salvador. Suas letras contam histórias e acontecimentos populares ocorridos aqui, como a pesca de uma Baleia em Ondina, ou a chegada de uma tartaruga, em 1970, na orla de Salvador. Escreveu sambas cantados por outros também, como “Cada macaco no seu galho”, cantado, como ja disse, por Gil, ou “Vai morar como diabo”, muito bem interpretado por Cássia Eller em seu acústico. Hoje Riachão anda isolado em sua casa no Garcia, depois de um acidente que matou parte de sua família. Eu ia vê-lo no carnaval desse ano, em um palco no Rio Vermelho, mas tanto eu quanto ele faltamos.
Bom, é isso. Eu ia colocar mais um ou dois albuns aqui mas não vai dar. Fiquei o dia inteiro escrevendo esse post, tanto que comecei a resumir os comentários dos últimos albuns (coitado do “Acabou chorare”). Preciso aprender a escrever mais rápido, ou menos.






24 Março , 2008 às 1:59 am |
Tá legal esse seu blog, gostei do post sobre música, mandou bem!
Continue escrevendo.
Abraço
24 Março , 2008 às 3:03 pm |
Gostei da seleção de musicas! E como vc sabe tbm sou fã do tropicalismo… nao sei se vc leu o livro Vereda Tropical… meio assim assim… mas vale a pena dar uma olhada…Tudo bem q é escrito em primeira pessoa…pelo Caetano… mas me ajudou a sacar qual a dos caras… principalmente aquela coisa do local e o universal…que senti ao ler teus posts sobre os albuns….
Vamo q vamo!