Semana passada, sexta-feira, eu acompanhei minha esposa em um encontro estadual dos pontos de cultura da Bahia. Ela estuda esses pontos, estava acompanhando esse evento desde quarta feira, e sexta ela me convidou pra ir e eu, para minha sorte, aceitei. Acontece que ela me convidou por um motivo bem específico: ela encontrou uma senhora que estava com problemas em instalar um modem 3g em um notebook com distribuição gnu/linux. Como eu consegui instalar o mandriva no computador de minha esposa e consegui fazer com que o modem 3g dela funcionasse, ela pressupôs que eu sabia fazer aquilo.
Eu não sou um bom usuário de gnu/linux. Gosto de fuçar, sei abrir o terminal e copiar as linhas de comando que só agora eu tenho uma pequena noção do que fazem, mas não passo perto de ser um desenvolvedor (malemá sou um usuário meia boca). O meu negocio é fuçar. Curto fuçar em tudo, seja coisas relacionadas ao computador, seja outra coisa. Gosto de arrumar porta, torneira, fazer gambiarras, antenas, mesas improvisadas, etc., e o gnu/linux é o melhor sistema operacional pra quem gosta de fazer isso. Curto ter que correr atras das coisas para que elas funcionem bem no computador, ao invés de ter tudo instaladinho. Claro que tem vez que é frustrante (por exemplo, não consegui fazer funcionar minha webcam no meu mandriva), e as vezes, na maioria das vezes, as coisas funcionam de um jeito que não sei explicar como. Coloco la no terminal as linhas copiadas em receitas de bolo, da um tipo de erro, fuço aqui, fuço ali, e quando eu desisto eu percebo q a parada está funcionando. Isso da um pouco de alegria de ver a parada funcionando e um pouco de frustração, de não saber mto bem como funcionou. Com o modem 3g da minha mina foi isso que aconteceu. Mexi, mexi, desisti e funcionou. Então eu não sabia muito bem como eu consegui instalar a parada no computador dela. Fui tentar fazer a mesma coisa com o meu e passei longe de conseguir. E agora eu tinha esse desafio: aprender e instalar o modem 3g no computador de uma senhora que eu nem sabia quem era.
Bom, cheguei lá na sexta. O encontro estava sendo em um hotel q ficava no Itaigara, um bairro bem classe média alta daqui de Salvador. Lá é completamente diferente dos lugares que eu conheço aqui, dos lugares onde morei e onde eu gosto de dar um rolê. É o que chamam de “centro novo” de Salvador, uma parte da cidade razoavelmente nova, que junto com Pituba e Iguatemi, veio substituir o bom e (muito) velho Comércio como centro empresarial da cidade, e isso fez com que o Comércio ficasse às moscas, degradado, arruinado. É um bairro feio, cheio de prédios, empresariais, comerciais e residenciais, quase sem casas.
O encontro foi bem massa. Não mto por causa do conteúdo. Não q o conteúdo não fosse massa, mas é q não me interessava tanto como interessou minha esposa, que efetivamente pesquisa aquilo. O que mais me interessou foi a diversidade de pessoas juntas no mesmo lugar, o que, nas minhas divagações, simbolizava a diversidade da produção cultural do estado da Bahia (por se tratar, basicamente, de um encontro de produtores culturais). Lá tinham indígenas de cocar, mães e pais do candomblé, rastafaris, doidos de 60 anos de idade, pessoas de calça social e gravata, hippies, moderninhos, geeks, etc. Achei demais.
Nesse meio tempo encontramos a senhora que queria que eu intervisse no computador dela. Era uma senhora negra, com vestimentas de candomblé. Supus que ela seria mãe de santo (acho que o nome certo pra isso é ialorixá) ou tinha um cargo político no terreiro, que era onde ficava o ponto de cultura que ela estava representando. Ela era incrívelmente paciente, gente boa demais e muito atenta. Conversei com ela e descobri que ela queria que eu configurasse todos os tipos de conexão com a internet que o computador dela conseguisse fazer: 3G, modem discado, cabo, wireless.
Eu sou um super simpatizante do candomblé. Sei da importância política que eles têm aqui no estado, e da crucial militância a favor da manifestação da cultura negra. Em épocas de proibição, os terreiros de candomblé foram os principais atores na luta a favor da manifestação cultural e contra a opressão de todo um povo. Hoje, eles são engajados (e sofrem bastante também) na luta pela diversidade religiosa, pois vários terreiros são hoje atacados por “fundamentalistas evangélicos”, que por um motivo bem imbecil, acreditam que toda manifestação religiosa negra é enviesada para o mal, é a própria manifestação do demo e deve ser combatida. Pura intolerância, desconhecimento e idiotice. Fui, um dia, numa festa de um terreiro de candomblé de caboclo aqui em Salvador, e foi uma das coisas mais impressionantes, animadas e legais que fizemos aqui.
Na hora eu comecei minha tentativa de trabalho. Por uma surpresa, ela usava a mesma distribuição gnu/linux que eu tinha, o mandriva. Foi mais fácil assim, pois dependendo da distribuição, eu ia ter que aprender onde estavam as coisas para depois aprender como alterá-las. Outra sorte foi que lá tinha um ponto de internet, pois sem isso, minha tentativa ia ser impossível.
Bom, foi tudo ao mesmo tempo agora. Embora ela fosse bem paciente, ela estava muito na vontade de ver a coisa funcionar. Enquanto eu procurava os benditos tutoriais na rede, ela me pedia para que eu fuçasse no wireless ou no modem discado, etc. Mas sem pressão. Ela sabia da minha condição de noob fuçador. Batemos um papo bom sobre tecnologia e eu descobri que ela era uma grande entusiasta do software livre. Sabia bem dos avanços técnicos e políticos do gnu/linux, e não abria mão de utilizá-lo. Ela não tinha dual boot no micro dela. Embora estivesse aprendendo, seu computador, por opção, funcionava exclusivamente em mandriva. Ela preferia comprar outro modem 3g com suporte gnu/linux do que instalar o windows. Fiquei completamente envergonhado com meu dual boot boqueta e resolvi, com esse papo, instalar integralmente um debian aqui no meu computadorzinho.
Bom, minha luta estava sendo travada. Era eu contra a máquina. Como não sabia tããão bem o que eu estava fazendo (com o consentimento da dona da máquina, claro) e como eu tinha um comprometimento moral para que aquele troço funcionasse (como diz minha esposa, sou muito obstinado), a luta foi braba, e a máquina estava ganhando por pontos de distância. Outro ponto a favor da máquina foi que o modem 3g não estava lá com a gente, então seria muito difícil configurá-lo. Quando disse isso, na hora a senhora ligou para alguém e pediu para que o modem fosse levado pra lá. Depois dessa, pensei: meu, ela quer muito que isso funcione, tenho muito que me dedicar nessa fita e quero mto q de certo.
Minha primeira vitória contra a máquina foi o wireless. Esse foi fácil, pois já conhecia os golpes. Instalar wireless foi a minha primeira enxaqueca com o gnu/linux, ainda quando eu tinha um ubuntu instalado em um computador de mesa que acabamos vendendo. Foi bem mais fácil do que da primeira vez, nem precisei de um tutorial. Dei um ipon e pronto. A mesma coisa foi com a internet a cabo. Foi só ligar o cabo e ficar clicando nos OKs e pronto. O terceiro round, o modem discado, tb não me causou problemas. Nunca tinha feito isso antes, e demandou outros tipos de informação, como o telefone que o modem tinha que discar para conseguir conectar. Entrei no site do provedor, falei num chat com o atendente e pronto. Daí foi só configurar a paradinha com a ajuda de um santo tutorial (deixo aqui meus enormes agradecimentos a todos os anjos de candura que produzem essas coisas magníficas que são os tutoriais: vcs são meus mestres professores.. hahahaha).
Bom, 3 a 0 pra mim, mas o pior ainda estava por vir: o maldito modem 3g. Enquanto o modem não chegava, fui me armando de tutoriais e batendo papo com a dona da máquina. Ela era de um ponto de cultura da cidade de Camaçari, que faz divisa com Salvador e faz parte da Região Metropolitana da capital. O terreiro dela ficava em uma zona rural, bem longe de qualquer tipo de conexão com a internet. Nem o 3g funcionava lá, só internet discada. O 3g era pra quando ela fosse pra cidade. Camaçari é conhecida aqui por causa do polo petroquímico da Petrobrás, maior polo industrial da Bahia e o maior polo industrial integrádo do hemisfério sul, segundo o omniciente wikipedia e instalado lá desde 1978. Já tinha lido sobre a cidade e o impacto do polo. A cidade era pacata, quase vazia, meio rural. Depois da construção do polo, a cidade sofreu um inchaço populacional tão grande que virou um caos.
Bom, nesse meio tempo chegou o meu novo oponente: o modem 3g. A nova luta se iniciara e um novo problema se apresentou: ela não sabia a senha do administrador da máquina, sendo impossível eu entrar como sudo no terminal para colar minhas receitinhas de bolo. Mas como eu conseguia entrar na parte de configuração do mandriva sem precisar dessa senha, lembrei que dá pra entrar, de lá, em um terminal já como administrador. RÁ!
Comecei. Fiz o que eu sabia logo de começo e já, logo de começo, deu o primeiro pau. Em uma opção de configuração de instalação de uma rede 3g do próprio mandriva, o maldito disse que não tinha conseguido instalar uns pacotes lá (ó o nível do meu conhecimento, hahahahaha). No computador da minha esposa, foi meio que isso q eu fiz e deu certo. No meu, eu fiz isso e não rolou. No da senhora também não. Tentei fazer o que os tutoriais me ensinavam e nada. Entrei no pendrive do modem e lá tinha uns drivers pra linux. Instalei um (que, pra variar, não fazia ideia do que era) e rolou. Fiz isso com outro e nada. Do meu lado estava a paciente senhora, olhando quase que sem piscar para tudo que eu tava fazendo, meio que tentando aprender aquilo que nem eu sabia. Fiquei uma hora e meia na frente do computador, e ela ficou uma hora e meia olhando pra tudo que eu estava fazendo, com um misto de curiosidade e vontade de que aquilo funcionasse. Eu ia tentando explicar o que eu achava que estava fazendo, tentando ensinar até onde eu sabia e deixando claro aquilo que eu não sabia muito bem mas que eu ia tentar mesmo assim.
Passei muito tempo nessa. Tentei várias coisas diferentes e já estava desistindo quando aconteceu. Estava lá, no pendrive do modem, quando este parou de funcionar. Do nada, não pude mais acessar nenhum arquivo dele e na hora pensei: fodeu! Daí, do nada, a luzinha do modem, que tava vermelha, ficou verde e depois azul. A mulher se animou e soltou um grito: FICOU AZUL! Interpretei aquilo como um sucesso. Realmente, quando o modem é reconhecido, a luz fica azul. Entrei no centro de rede do mandriva e estava lá, em laranja “modem 3g zte alguma coisa”. RÁ!
Desconectei a conexão wireless e fui tentar conectar o modem 3g. Nada. Lá veio a frustração. Nessa hora, vi que ao meu redor estavam mais 3 espectadores vendo o combate. Infelizmente, nenhum dos 3 sacavam de software livre. Todos que sabiam disso estavam com minha esposa num debate acaloradíssimo sobre gnu/linux e os pontos de cultura. No encontro tinha vários desenvolvedores de software livre, e eu mesmo fui atrás de algum para me ajudar ou para me substituir no combate, mas estavam ocupados (claro que não é culpa deles, eles estavam lá pra debater, eu estava lá pra instalar o coisinho). Foi quando recebi uma informação de um espectador: não tem sinal aqui dentro pra modem 3g, não consegui conectar o meu. Desconectei o modem, conectei novamente e foi mesma coisa: luz vermelha, luz verde, luz azul e o modem 3g zte qualquer coisa no centro de rede. Sucesso, eu pensei, mesmo que limitado e sem uma real comprovação empírica, sucesso. Avisei minha amiga: ó, não tem sinal aqui. Vc vai ter que testar isso em algum lugar q tenha sinal, se não funcionar, vc me liga.
A mulher ficou animadíssima. Viu aquilo como uma possibilidade de continuar com seu queridíssimo software livre e não precisar mais quebrar a cabeça com um modem. Ficou muito agradecida, e eu tb. Por causa dela eu pude aprender mais um pouquinho sobre o gnu/linux, além de poder conhecê-la e bater um papo bem firmeza com ela. Me senti bem, satisfeito e também agradecido. Achei animal a perseverança e a paciência dela, além da vontade de que aquilo desse certo. Por fim, fui convidadíssimo para uma festa no terreiro dela, eu e a minha esposa, o que eu aceitei beem de antemão, pois sei q vai ser mto legal. Isso graças ao software livre e a minha esposa, que acreditou na minha obstinação.