Rá!
Eis que, em uma inesperada necessidade de falar alguma coisa, esse blog entrou novamente em uma parcial (talvez única) atividade. Vai saber…
Mas aproveitando que eu ainda tenho esse blog pra escrever alguma coisa (ou quase qualquer coisa), volto pra tentar sintetizar em uma quase linha de quase argumentação o show do Metal Machine Trio que assisti no SESC Pinheiros, em São Paulo, dia 20 de novembro. Vou tentar escrever isso pra, de uma vez por todas, eu pensar mais sobre o assunto e tentar entender o que se passou. Não quis falar muito dele pras pessoas que me perguntaram porque, em primeiro lugar, deu preguiça. Depois, acho que as pessoas não iam se interessar taaanto assim, só queriam saber se foi bom ou não (foi bom, muito bom, pelo menos pra mim). Por fim, eu ainda não consegui sistematizar a parada toda, e tenho só uma impressão muito viajante, tipo uma teoria sobre a apresentação, que eu achei preliminar e sem noção demais pra ficar contando, mas é disso q vou escrever aqui (despretensiosamente, viu galera. É só minha quase opinião sobre o que eu vi, não a verdade sobre a parada).
Bom, pra contextualizar, Metal Machine Trio é o projeto que o Lou Reed anda apresentando em turnê. É um show baseado no disco absurdamente estranho chamado Metal Machine Music, de 1975. Consegui ouvir o disco numa terceira tentativa, e não foi fácil. Não acho que é um disco ouvível (principalmente careta) e provavelmente nunca o ouvirei novamente. Projetado como LP duplo, o álbum contém quatro músicas (ruídos, distorções, samples analógicos, barulheira, enfim), uma de cada lado de cada disco. Não tem um campo harmônico palatável nem um ritmo identificável. Enfim, é um disco de barulho, noise, sujeira instrumental.
Fui comprar meu ingresso já meio que consciente do que eu ia tentar assistir. Li as notícias sobre o show, (tentei) ouvir novamente o disco e já fui me preparando. Sabia que não ia rolar velvet ou alguma canção de seu projeto solo, só barulho (no bom sentido, claro). Então eu inventei um propósito para eu tentar me situar dentro do que eu imaginava que seria o show: ver como os caras produzem esse barulho, que tipo de instrumento/aparelho é utilizado pra fazer tanto barulho assim e como fazer isso ao vivo. Não entendo muita coisa sobre isso. Não sei diferenciar muito distorções, amplificadores, e existem muitas parafernálias que eu não conheço, mas minha pira foi ver o movimento dos caras e o que eles estavam apertando, girando, tocando, batendo ou pisando para produzir ruídos.
Fui com essa ideia. Sabia muito bem que podia odiar a parada. Sabia também que não era possível eu conseguir assistir o show careta, então decidi me entupir com um baseadão logo antes de entrar, já com umas brejas na cuca. Tava tão louco que pensei que não ia conseguir encontrar meu lugar no teatro (tenho sérios problemas com isso). Acho que o beck me ajudou bastante, pois com ele consigo (mais ou menos) brincar de distinguir algum som da massa sonora que saia das caixas amplificadoras. Achei também que o baseado me ajudou a me desconcentrar um pouco do incomodo produzido pelos ruídos e me concentrar na minha ideia de performance homem-aparelhagem-massa sonora.
Bom, achei meu lugar: oitava fileira, meio que no meio. Mas meus amigos me chamaram pra sentar na primeira fileira, bem do lado da caixa de som e do saxofonista esquizo. Quando chegamos, o palco era somente aparelhos. Do lado esquerdo do palco, um amontoado de pads, teclados e dois mcbooks. No centro, umas 4 ou 5 guitarras e uma aparelhagem também gigante (que eu não faço a menor ideia do que era). Bem na minha frente, à direita do palco, mais aparelhagem, microfone e um sax. Eram os lugares dos três integrantes da banda (banda?): Sarth Calhoun, que processava e emulava os sons produzidos no palco a partir da sua aparelhagem e também produzia alguns sons a partir dos trocentos pads (ele fez uma emulação de contra baixo que ficou bem boa); Lou Reed, que, confortavelmente sentado, produzia distonia na guitarra cheia de pedais e que, em uma hora do show, encostou a guitarra e também brincou de emular a massa sonora a partir da sua maquinaria (preferi ele com a guitarra. Nada de muito diferente sem ela, mas eu realmente queria ver ele fazendo barulho com o instrumento); e por fim, o saxofonista doido, Ulrich Krieger, que teve as manhas de colocar um overdrive no talo e várias outros efeitos para distorcer a melodia do sax (além de fazer umas dancinhas muito estranhas enquanto tocava). Contudo, ao fundo, atrás do saxofonista, tinha o que eu deduzi ser um quarto integrante, não humano, produtor de um ruido doido, meio estomacal: uma pilha de amplificadores diversos (eu acho que eu contei uns 12), empilhados na esquina do palco, com quatro guitarras ligadas e encostadas na parede de aparelhos. Quando entrei no teatro era o único som que era produzido no palco, sendo “afinado” por alguém da produção da apresentação. O cara estava tocando amplificadores! Mechia na tunagem das maquinas para alterar os ruídos produzidos pela parede amplificadora. Até o momento só existiam os 2 no palco: o maluco da produção e a pilha de amps. Logo ele encontrou um ruido que lhe (des)agradasse e saiu, deixando a gente, público, com um barulho ensurdecedor que fazia vibrar nossos órgãos internos. Muitos colocaram os dedos no ouvido, mas como abafar o estomago, principal ouvido desse timbre doido? Acredito que a pilha com as guitarras permaneceram ligada, o tempo todo, dando mais um produto sonoro bruto a ser emulado e processado pelos cientistas doidos do palco.
Cinco minutos de microfonia contínua e os artistas entraram. Cada um a postos, sem nenhuma interação com o público, eles começaram. Não faço ideia de como a apresentação começou e acho que nem importa muito, mas quando começaram, não pararam mais (acabei de lembrar de como começou: ao fundo do palco, do lado dos amps, tinha um gongo gigante e um enorme bumbo. Começou com o saxofonista tocando os 2 instrumentos de uma forma, segundo minha parca interpretação, aleatória). Piraram em 1 hora e 20 minutos de puro improviso noise. Não tinha escala, não tinha ritmo e quase não tinha cadeia harmônica. O que eu vi foi meio que uma disputa, uma tensão entre os músicos. Disputa pelo controle da massa sonora, da emulação e processamento, da busca pela desestabilização daquilo que estavam fazendo. Tudo que era brutalmente produzido no palco passava pela maquinaria de Sarth Calhoun. Ele era o anti-regente da apresentação. Seu papel era o de fazer, ali, no palco, alguma coisa com os ensurdecedores barulhos produzidos pelos outros 2 instrumentistas e pela parede de amps. Mas isso não era algo dado. Digo, não era um papel gentilmente cedido pelos outros integrantes: era uma guerra. Cada um queria ter o controle de seu instrumento e do ruido produzido por ele, e levar a massa sonora para longe de uma zona de conforto. Cada instrumentista tinha, a sua frente, um arsenal de produção de ruídos: instrumentos, pedaleiras, emuladores, distorções, uma pá de maquinarias, e usavam sem dó. Era meio que um “quero ver o que você vai fazer com isso agora”. Disputa, com pouquíssimos sinais de concordância, durante todo o improviso. Isso me deu uma quase sensação de entendimento da parada, mesmo sabendo que podia não ser nada disso. Tinha horas que até deu pra bater o pé no chão buscando acompanhar algum rítmo que algum instrumento estava produzindo. Lou Reed até produziu uma sequencia harmônica de acordes, uma hora, numa batida bem rock’n roll, e o saxofonista, em outro momento, fez o mesmo, mas estava longe do conforto do entendimento lógico da música, como se nós ouvíssemos alguma musica no rádio. Todo momento de estabilidade era quebrado rapidamente, sem nenhum sinal de acompanhamento de algum dos outros integrantes. Pelo contrário, qualquer estabilidade era quebrada. Algumas vezes, minha sensação era de que alguém ali estava perdido (eu estava), tentando puxar todos que estavam ali para o caos sonoro total. Isso foi sentido rapidamente por mais de 100 pessoas desavisadas ali presentes, que abandonaram a apresentação após 20 minutos de barulho putas da vida. Uma menina até mandou um fuck you para o palco.
Existia alguma sequência ou alguma sequência de temas, como no jazz, e isso ficou claro com as indicações nada sutis de Lou Reed, que no centro do palco aprovava ou reprovava a massa produzida e meio que apontava a mudança de tema, principalmente para o saxofonista. Ele era o verdadeiro regente da parada, pelo menos na forma. Em diversos momentos eu pirei. No auge da piração, lembrei de smashing pumpkins e do pavement, que estavam fazendo show em sampa no mesmo dia. Naquele momento tudo fazia um pouco de sentido, tinha uma conexão entre os shows. Pensei estar vendo um material bruto e ainda intragável do noise pop alternativo. Tambem me lembrei muito no velvet e das experimentações sonoras e maquinais da banda. Será que era meio que isso que eles faziam na Factory, doidos de speed? Ficavam 1 hora e meia produzindo ruidos experimentais, pirando em qualquer coisa que pudesse produzir distorções ensurdecedoras nos instrumentos?
1 hora e 20 minutos depois, eu já estava morto. Minha vontade era de acender outro beck, pois já estava ha tempos na área do desconforto. A massa sonora produzida no palco era essencialmente sensorial, principalmente pra mim, que estava do lado da caixa de som. O som era processado no corpo, nos órgãos, nos músculos, e isso me deixou exausto. Mas pouco tempo depois, Lou Reed levantou, fez uns batuques aleatórios no surdo imenso e saiu do palco, deixando a gente lá, a maioria com cara de ponto de interrogação: o que se passou aqui? Minha sensação era essa. O que foi tudo isso? A única coisa que eu consegui pensar na hora foi que tinha sido a experiência de show mais estranha que eu já tinha passado. O fim da apresentação se estendeu com alguns minutos de aplausos entusiasmados. Acho que grande parte do público se sentiu, como eu, feliz de ter passado por aquilo. Não como uma forma de provação, de ter sido massacrado por algo incompreensível, mas de ter passado por uma experiência meio que alucinante.
Ao fim dos aplausos, eis que Lou Reed volta ao palco, munido apenas de uma guitarra e um microfone, e, para colocar a cabeça da galera no lugar, toca I’ll be your mirror, do velvet. Guitarra também serve para fazer acordes. Foi estranho. Só soube que era a música por causa da letra. Não sei se ele fez aquilo de bom grado, mas acho q foi tipo um agradecimento. Não esperava um momento como esse, mas deu uma situada e um adeus.





